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56% da receita das apostas online na Austrália vai para operadores estrangeiros. O órgão regulador que permite isso não tem funcionários em tempo integral.
Um projeto de lei apresentado em 7 de abril pode reformular a supervisão do setor de apostas online na Austrália — ou deixar a estrutura praticamente inalterada.
A Austrália registra as maiores perdas per capita com jogos de azar do mundo, em torno de AU$ 1.272 por pessoa por ano. O mercado por trás desse recorde gera US$ 390,6 milhões em receita estimada por mês. O órgão responsável pela sua fiscalização não tem nenhum funcionário em tempo integral.
Isso pode estar prestes a mudar — ou não. A questão está no parlamento.
A dimensão do que está em jogo
Em março de 2026, a Blask rastreia 321 marcas de apostas online registradas na Austrália, sendo 317 delas ativas.
O total de mercado pela Linha de Base de Receita Competitiva (CEB) atingiu US$ 390,6 milhões no mês (variação entre US$ 238,3 milhões e US$ 847,4 milhões). A CEB é o benchmark de receita baseado em mercado da Blask, derivado da força da marca e do posicionamento competitivo, não dos resultados financeiros reportados pelos operadores. A variação reflete diferentes cenários competitivos: US$ 238,3 milhões sob premissas conservadoras e US$ 847,4 milhões sob premissas favoráveis.

Os benchmarks de aquisição de jogadores acompanham o cenário de receita. O Acquisition Power Score (APS), estimativa da Blask sobre o influxo de novos clientes com base na presença de mercado, foi de 247,7 mil em março (variação entre 164,4 mil e 497,6 mil).
Mas o número mais revelador é estrutural: 197 das 321 marcas que operam na Austrália não possuem licença australiana local. Elas se registram no Território do Norte, pagam impostos ao NT e ficam sob supervisão do NT — independentemente de onde seus clientes realmente estejam.
Demanda vs. receita: o paradoxo offshore
Essa divisão de licenciamento cria um desequilíbrio marcante nos dados.
O Blask Index — um sinal de demanda aprimorado por IA, construído a partir da atividade de buscas — mostra que as marcas licenciadas localmente geraram 66% da demanda total do mercado em março de 2026 (2,64 milhões contra 1,34 milhão para os operadores internacionais). Em termos de atenção por buscas, as marcas domésticas dominam.

A receita conta a história oposta. Os operadores internacionais — as 197 marcas sem licença australiana local — respondem por 56% do CEB total (US$ 218,5 milhões contra US$ 172,1 milhões das marcas locais). Eles atraem menos interesse em buscas, mas extraem mais dinheiro por jogador.

A SportsBet lidera o mercado em março de 2026 com uma CEB mensal de US$ 55,4 milhões (US$ 41,6 milhões–US$ 97 milhões). A Tab ocupa o segundo lugar, com CEB de US$ 33,9 milhões. As três maiores marcas de apostas do país — SportsBet, Bet365 e Ladbrokes — estão registradas no Território do Norte.
Esse arranjo de registro é precisamente o motivo pelo qual a Northern Territory Racing and Wagering Commission (NTRWC) se tornou, na prática, a reguladora nacional de apostas online da Austrália.
Um regulador apenas no nome
A NTRWC supervisiona 52 dos maiores bookmakers online da Austrália. Faz isso com zero funcionários em tempo integral.
Investigações da ABC e do Four Corners publicadas em outubro de 2025 documentaram os detalhes: seis dos dez comissários mais recentes eram donos pessoais de cavalos de corrida; o presidente da comissão aceitou presentes e convites para eventos de operadores que seu órgão deveria auditar. As baixas alíquotas de impostos do NT atraíram os maiores nomes do setor — e a estrutura de fiscalização que acompanhou esses registros foi, na prática, mínima.
A história ganhou atenção nacional, e a pressão por reformas vem crescendo desde então. Em abril de 2025, o marco regulatório do NT foi descrito no parlamento como uma “farsa completa”.
O que a reforma propõe
Em 7 de abril de 2026, a Procuradora-Geral do NT, Marie-Claire Bowtell, apresentou um projeto de lei para reestruturar a comissão. As mudanças propostas:
- Retirar da NTRWC a supervisão do turfe local, concentrando-a exclusivamente nas apostas online
- Proibir os comissários de manter contas pessoais de apostas
- Proibir os comissários de serem proprietários de cavalos de corrida
O projeto não cria um regulador federal. O Primeiro-Ministro Anthony Albanese rejeitou as recomendações de uma comissão parlamentar para transferir a supervisão nacional a um órgão federal. A NTRWC mantém a jurisdição. A votação do projeto está prevista para maio de 2026.
Separadamente, Albanese anunciou restrições à publicidade de apostas em 2 de abril, incluindo a proibição de anúncios durante programas esportivos. Análises do governo estimam que as restrições publicitárias reduzirão as apostas em 0,8%.
O que os operadores devem acompanhar
A questão estrutural para o setor não é se os comissários da NTRWC podem ser donos de cavalos — mas sim se as 219 marcas online ativas da Austrália enfrentarão requisitos de conformidade mais rigorosos, custos de licenciamento mais altos ou, eventualmente, um marco federal com regras padronizadas entre os estados.
O projeto atual é uma correção parcial. Melhora a aparência sem alterar fundamentalmente a jurisdição. Dito isso, a dinâmica política mudou. O Parlamento do NT votará em maio sob intensa fiscalização da mídia e da opinião pública. Se o projeto for aprovado, cria um regulador mais focado, exclusivo para apostas online e com governança mais transparente. Se falhar ou for diluído, a pressão por intervenção federal aumenta.