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Proibição das apostas no Brasil: mercado perdido para alguns, negócio perdido para a maioria
A proibição brasileira fechou o mesmo mercado para todas as marcas licenciadas. No entanto, para a maioria delas, esse mercado era a empresa inteira.
A Medida Provisória 1.394, do presidente Lula, suspendeu novos depósitos e apostas em 25 de setembro. Em 6 de outubro, derrubou os sites licenciados e, em 25 de outubro, encerra todas as licenças federais. A Blask estimou que os primeiros dez dias custaram às operadoras licenciadas cerca de R$ 1,2 bilhão em GGR. Agora o Congresso tem 120 dias, além do recesso, para manter ou derrubar a medida.
A proibição das apostas no Brasil atinge o mercado inteiro de uma só vez. Ainda assim, cada marca paga a conta com uma fatia diferente do negócio. Os dados da Blask mostram quanto da receita-base de cada marca licenciada estava no Brasil. Com isso, as marcas se dividem em três grupos: as que perdem o negócio, as que ficam no meio do caminho e as que perdem um mercado.
Quem detinha o mercado licenciado antes da proibição das apostas no Brasil
Antes do decreto, o dinheiro do Brasil estava quase todo com marcas licenciadas. De janeiro a setembro de 2026, elas concentraram 96,8% do CEB do país (Competitive Earning Baseline, a receita-base projetada da Blask), ou US$ 7,5 bilhões. As marcas offshore ficaram com 3,2%. Depois de 25 de setembro, o Blask Index onshore caiu 82%. Já as marcas offshore atraíram a mesma demanda de antes, com variação de até 1%. Por isso, a participação delas na busca subiu de 3,8% para 17,8%, sobre um total muito menor.
Quatro marcas, Betano, Bet365, Sportingbet e Superbet, detinham 50,9% do CEB licenciado. Abaixo delas, o mercado era local. Das 158 marcas licenciadas que a Blask acompanha no Brasil, 125 não tinham nenhum outro mercado. Juntas, somavam US$ 3,14 bilhões, ou 41,8% do total onshore. Seis das dez maiores pertencem a esse grupo, de Esportes da Sorte e 7Games a Betnacional e Vaidebet.

Os pontos laranja são marcas para as quais o Brasil era a maior parte do negócio. Além das 125 marcas exclusivas do Brasil, outras cinco, incluindo Sportingbet, Blaze e Bet7k, obtinham mais de 60% do CEB no país. Juntas, essas 130 marcas detinham 51,7% do CEB licenciado. Assim, mais da metade do mercado licenciado pertencia a empresas que a proibição deixa com pouco mais para faturar. No outro extremo estão 21 operadoras globais, para as quais o Brasil representava menos de 30% do CEB. Elas detinham apenas 16% do mercado.
Marcas que perdem o negócio
Para as 125 marcas de mercado único, a proibição elimina toda a receita de uma só vez. A maioria pertence a grupos brasileiros. A OIG Gaming opera 7Games, Betão e R7. A Esportes Gaming Brasil opera Esportes da Sorte e Onabet. Já a Ana Gaming opera 7K, VeraBet e Cassino.

A proibição pesa mais sobre um punhado de donos locais. Só a OIG Gaming e a Esportes Gaming Brasil somavam US$ 965 milhões em CEB, distribuídos por cinco marcas. Isso equivale a quase um terço do que todas as marcas exclusivas do Brasil faturaram e a 12,9% do mercado licenciado. Como todas as marcas estão em um único país, nenhum dos dois grupos consegue transferir receita para outro mercado enquanto espera o Congresso.
As marcas exclusivas do Brasil foram as primeiras a cortar empregos. Até 5 de outubro, pelo menos 36 das 188 marcas licenciadas tinham demitido funcionários, segundo uma pesquisa da Amig, associação de mulheres do setor de jogos do Brasil, divulgada pela Folha. A Ana Gaming confirmou demissões, sem informar números: “O encerramento das operações por ordem legal compromete as condições que sustentam empregos e contratos. Mesmo uma eventual reversão da medida não desfaz os danos já causados.”
A Rivalo dispensou quase toda a equipe de cerca de 100 pessoas, segundo ex-funcionários, e manteve alguns profissionais para um possível recomeço. Já Betano e Superbet, que têm estrutura multinacional e caixa, preservaram suas equipes.
A Sportingbet é a marca internacional mais próxima desse grupo. O Brasil respondia por 83,7% do seu CEB, e o segundo maior mercado, a Grécia, tinha menos de um décimo desse tamanho. Antonio Forjaz, que comanda a Sportingbet na América Latina, afirmou em 2 de outubro que a marca encerrará a operação brasileira se a proibição continuar.
Marcas no meio do caminho
A Betano carrega a maior perda em termos absolutos. Seu CEB brasileiro foi de US$ 1,88 bilhão de janeiro a setembro, ou 51,6% do total global. A Allwyn, que detém 36,75% da Kaizen Gaming, operadora da Betano, descreveu o Brasil como o maior mercado da Betano. Segundo a empresa, porém, os demais países geram a maior parte da receita e crescem mais rápido. A estimativa da Blask e a formulação da Allwyn se encontram perto da mesma linha de 50%. A marca prepara uma ação judicial com base na licença de cinco anos e mantém o plano de entrar em mais quatro países no início de 2027. Já a projeção da Allwyn de margem de EBITDA ajustado de cerca de 37% para 2026 deixa de valer se a proibição durar o ano todo.

O tamanho do segundo mercado define quanto tempo uma marca consegue esperar. O próximo maior mercado da Betano, o Chile, gera um quinto do que o Brasil gerava. Portanto, nenhum país sozinho cobre a lacuna. A Superbet obteve 43,7% do CEB no Brasil, mas a Romênia quase empata com esse valor. Dessa forma, o grupo tem um segundo mercado de porte equivalente. O grupo não publicou nenhum comunicado sobre o Brasil. Ele desligou o site em 5 de outubro e manteve a equipe.
Sete marcas ficam entre 30% e 60% de exposição, e duas delas respondem por quase todos os 32,3% do CEB licenciado do grupo. Betano e Superbet têm caixa e mercados para esperar o Congresso. Ao mesmo tempo, são as que mais têm a perder durante a espera.
Marcas que perdem um mercado
Para os grupos listados em bolsa, o Brasil aparece como uma linha na projeção de resultados. A Entain esperava que o Brasil representasse cerca de 5% da sua receita líquida de jogos online em 2026, com contribuição modesta ao EBITDA. Ela manteve a projeção de EBITDA, mas agora espera ficar na faixa inferior. A mesma proibição tira 83,7% do CEB da Sportingbet e cerca de 5% da receita online da controladora.
A Flutter mostra a mesma divisão. A Betnacional obtinha todo o seu CEB no Brasil. Já a Flutter espera que a proibição reduza cerca de US$ 70 milhões da receita de 2026 e US$ 20 milhões do EBITDA ajustado, se durar até o fim do ano. Para comparação, a receita de 2025 foi de US$ 16,4 bilhões. A empresa planeja retomar a operação se o Congresso rejeitar a medida.
A Bet365 perdeu seu segundo maior mercado por CEB. O Brasil representava 15,8% da sua base global, distribuída por 79 países, e só o Reino Unido igualava esse valor. A empresa é privada e não divulgou números. Em comunicado à imprensa do setor, ela chamou o decreto de inconstitucional e apoiou as contestações judiciais das entidades do setor.

Nenhuma dessas marcas perde mais de um quarto do negócio. Mesmo onde o Brasil era o segundo mercado, como para Bet365 e Brazino777, o restante da carteira era de três a cinco vezes maior. Assim, a proibição abala o resultado de um ano, mas deixa a empresa de pé. As 21 marcas desse grupo detinham 16% do CEB licenciado do Brasil, e para cada uma delas o Brasil era menos de 30% do negócio.
Conclusão
A proibição das apostas no Brasil remove um mercado, mas metade da receita-base licenciada pertencia a marcas sem outro lugar para ir. Os grupos globais projetam um ano mais fraco. Betano e Superbet podem esperar com reservas e outros mercados. Já as 125 marcas locais precisam sobreviver até a votação do Congresso.
Em 2004, uma medida provisória fechou os bingos do Brasil. O Senado rejeitou a medida por 32 votos a 31 em maio daquele ano, mas o setor nunca voltou como atividade regulamentada. Desta vez, a pergunta é quantas das 125 marcas ainda existirão quando o Congresso decidir.